Pilates e imagem corporal




Durante a minha trajetória acadêmica, desde a graduação, seguindo pela especialização, um dos únicos interesses que se mantiveram acesos na minha mente, foi acerca da imagem corporal, ou mais precisamente, da auto imagem corporal, principalmente de mulheres. Provavelmente, isso aconteceu por uma certa rebeldia e contraposição à forte tendência dos profissionais da educação física em dar exagerada atenção à aparência do corpo, deixando de lado outros diversos aspectos do sujeito humano.

A temática do corpo é uma das mais discutidas no mundo atual e cada vez mais tem se tornado objeto de estudos das ciências sociais e humanas. O século XX foi um período em que novos valores e significados foram atribuídos ao corpo, inclusive no Brasil. A preocupação com o corpo sempre esteve presente, desde a antiguidade, com os gregos – quiçá até antes, mas por falta de registos históricos, não possamos calcular seu início preciso. Sabemos que os ideais de beleza são dinâmicos historicamente; enquanto para os gregos, um corpo esculpido por exercícios, forte e imponente era o desejado, para os contemporâneos da Renascença o corpo deveria ser arredondado, ventre avultado e com formas obesas para ser considerado belo.

Atualmente, o estereótipo corporal perdeu seu caráter saudável e, no seu lugar, predomina a valorização dos modelos corporais baseados em parâmetros de juventude. Pensando nas caraterísticas brasileiras de corpo feminino – baixa estatura, pele e cabelos escuros, longos e crespos, cintura fina, quadris largos e seios pequenos – notamos que, a partir do século 21, este padrão estético sofreu um processo “norte-europeizante”, entrando em cena, portanto, um modelo de beleza que valoriza pessoas altas, muito magras, com pele, cabelos e olhos claros. Este novo padrão tem ganhado força nos últimos anos pela sociedade ocidental como modelo de corpo e as pressões sociais para obtê-lo são cada vez maiores.

Estamos na era da atividade física, da dieta, dos shakes e medicamentos emagrecedores, dos tratamentos estéticos, dos implantes de silicone, cirurgias plásticas e uma infinidade de procedimentos lícitos e ilícitos, seguros e perigosos para a saúde, que visam um corpo perfeito. A mulher fora desse padrão é vista como desleixada, incapaz e até mesmo, portadora de distúrbios psiquiátricos – como é encarada a obesidade atualmente.

Em pesquisas pôde-se verificar que cerca de 90% das mulheres entrevistadas se preocupam com seu peso, sendo que destas, 95% se sentem insatisfeitas com seu peso. A mídia é comumente apontada como principal agente disseminador e influenciador do estereótipo de beleza, como mostra um estudo patrocinado pela Unilever. Nele foi constatado que para 68% das entrevistadas “a mídia divulga um padrão estético que as mulheres nunca poderão alcançar”. É simples verificar essa informação; a televisão, a internet, os jornais, as revistas, outdoors, além da sociedade em geral, contribuem significativa e efetivamente para a propagação do padrão de beleza feminino.

A consequência desse incentivo, e posterior busca, ao ideal estético vigente pode ser percebida ao passo que está atingindo mulheres cada vez mais jovens. Crianças e adolescentes preocupam-se precocemente com seu peso e aparência corporal de forma geral, que possam se apresentar fora do padrão. Segundo estudo publicado pela Revista Britânica de Desenvolvimento Psicológico da Austrália[1], verificou-se que meninas entre 5 e 8 anos desejavam ser mais magras porque assim seriam mais bem aceitas pela sociedade. Já na adolescência, quando as meninas enfrentam dificuldades em aceitar as mudanças naturais do próprio corpo, passam a sustentar a indústria dos cosméticos e revistas que exploram o mito do corpo perfeito e a necessidade de obtê-lo a todo custo para serem bem sucedidas.

As meninas adentram a vida adulta e essa fixação permanece enraizada e tende a ser ainda mais fortalecida, pois, apesar de as pressões relativas à beleza ocorrerem em ambos os gêneros, elas são mais apelativas para as mulheres, que passam a se utilizar de recursos cada vez mais invasivos e complexos que, consequentemente, trazem maior risco à saúde e a vida.

Neste sentido, percebe-se que o descontentamento relacionado ao próprio corpo, que, por sua vez, provoca uma depreciação da auto imagem corporal, vem de uma ênfase cultural na magreza e do estigma social da obesidade. E considerando que a atividade física está relacionada à consciência sobre o próprio corpo, vemos que as nossas atitudes e percepções sobre o corpo podem influenciar positiva ou negativamente na realização de atividades físicas.

Portanto, a educação física (como o próprio nome presume) tem a tarefa e o desafio, a partir da atuação de seus profissionais e com o apoio da sociedade, de ser um meio esclarecedor e transformador, no sentido de equilibrar as exigências do mundo em que vivemos com as necessidades, desejos e limitações que todos estamos sujeitos.



[1] Notícia publicada no site da BBC Brasil em 07 de março de 2005.